A simbiose entre o Santa Cruz e Marcelo Martelotte

Por: Felipe Holanda

A simbiose entre o Santa Cruz e Marcelo Martelotte – ou vice-versa – vem de décadas. Campeão como jogador e treinador pelo clube das três cores, Martelotte vive sua quarta passagem no Arruda e ainda consegue repetir o êxito de outrora: já classificado e líder absoluto da Série C do Brasileiro.

Martelotte é o único na história a levantar troféus (1993 e 2013) e conseguir acesos (1999 e 2015) pelo Tricolor dentro e à beira do gramado. Vale ressaltar que Givanildo Oliveira também foi campeão pernambucano jogando e treinando e também subiu à Série A sendo técnico, mas não disputou nenhuma partida de Série B como atleta de linha.

Nesta análise especial, o Pernambutático destrincha taticamente os trabalhos do comandante na Cobra Coral, com números, feitos históricos, e muito mais.

MANUTENÇÃO IMPORTANTE

Martelotte pegou um time bem montado por Itamar Schülle, é fato. Mas conseguiu dar continuidade ao bom trabalho, os jogadores abraçaram a ideia do carioca de 51 anos e os números do Santa estão além de qualquer discussão.

Desde que voltou ao Recife, o treinador não sabe o que é derrota, com sete vitórias e dois empates nos nove jogos que disputou – 85 % de aproveitamento. Com ele, o Tricolor marcou 19 gols e sofreu apenas seis, com 12 de saldo, decolando de vez na tabela do Grupo A.

A classificação para a segunda fase veio no último final de semana, com vitória convincente sobre o então segundo colocado, o Vila Nova. O sistema tático mais utilizado pelo treinador vem sendo o 4-3-2-1, mesmo quando atua repleto de desfalques, como diante dos goianos.

Postura dos pernambucanos ante o Tigre (Imagem: DAZN)

Na 12ª rodada, o triunfo coral teve requintes de massacre: 6 x 1 ante o Imperatriz. Na ocasião, a equipe se postou na maioria dos 90 minutos no 4-1-4-1 e demonstrou transição rápidas e precisas, sobrando no placar sem maiores esforços.

Tricolores seguros na defesa (Imagem: DAZN)

Diante do Ferroviário, no início de outubro, o time mostrou outra postura: o 4-3-3 defensivo, que anulou o adversário e deu resultado. Explorando os contra-ataques e freando a amplitude cearense, o Mais Querido venceu por 3 x 1; Treze, Botafogo-PB e Paysandu também foram derrotados neste recorte.

Disposição tática do Santa contra o Ferroviário (Feito no Tactical Pad)

ATUAÇÕES QUESTIONÁVEIS

O Santa Cruz só oscilou para baixo justamente nos dois empates da Era Martelotte. A pior atuação foi no 3 x 3 diante do Jacuipense, no Arruda, quando os corais deram espaços em demasia e por pouco não saíram derrotados, dispostos no 4-2-3-1.

Postura dos pernambucanos ante o Leão da Sisal (Imagem: DAZN)

Foi aí que o time mostrou fragilidades. Com uma transição defensiva lenta, principalmente no primeiro tempo, os comandados de Martelotte deixaram a meta de Maycon Cleiton exposta mais de uma vez.

Cochilo do Mais Querido no gol do Jacupa (Imagem: DAZN)

O outro jogo sem vitória foi no insosso 0 x 0 contra o Manaus, fora de casa, em setembro. A equipe priorizou a defesa e foi pouco produtiva no ataque, entretanto, somou um ponto importante na caminhada da primeira fase. Atualmente, a distância para o Remo, vice-líder do Grupo A, é de sete (33 a 26).

Com 26 gols marcados, o Tricolor é dono do segundo ataque mais positivo do Nordeste nas Séries A, B, C e D; apenas Sampaio Corrêa, CSA e Itabaiana-SE (27) têm mais. Além disso, é o segundo em aproveitamento, 78.6%, somente atrás do Altos-PI (81.8%), da quarta divisão.

2015: O RESGATE

Voltando nas areias do tempo, Martelotte teve sua terceira passagem pelo Santa em 2015, a segunda como treinador. Fez história e trouxe de volta o espírito de luta coral. Pegou o time à beira do abismo, na antepenúltima colocação da Série B, mas foi empilhando ultrapassagens e pulou para a parte de cima na tabela.

O resgate do Mais Querido naquela temporada passa diretamente por uma sacada importante do técnico chamada Wellington Cézar, da base tricolor. Naquela competição, ele foi espetacular, dando a segurança necessária lá atrás no 4-1-4-1; outra opção utilizada era o 4-2-3-1, com rapidez na transição ofensiva.

Esquadrão tricolor em 2015 (Feito no Tactical Pad)

Tendo Wellington na cabeça de área, os meias ganhavam liberdade para a criação de jogadas e a ousadia rendeu a Martelotte um lugar no G-4, algo que era inesperado antes da sua chegada às Repúblicas Independentes do Arruda. O acesso fechou a campanha com chave de ouro.

O ápice daquela “rastejada” da Cobra Coral foi a vitória emblemática no Botafogo, por 3 x 0, no Rio. No segundo gol, em jogada reativa, Luisinho recebeu belo passe de Daniel Costa e deixou Grafite na boa para marcar.

2013: A RECONSOLIDAÇÃO

Vinte anos depois de ser campeão pernambucano como jogador, Martelotte volta ao Arruda, dessa vez para assumir o comando técnico do time. Muito jovem e ainda inexperiente, chegara sob desconfiança e era uma aposta da cúpula coral à época.

A despeito de tudo e de todos, desempenhou bom trabalho no Santa durante o primeiro semestre e ganhou notoriedade por fazer alguns atletas renderem além do previsto, caso de Everton Sena, que foi improvisado na lateral direita e se tornou peça-chave do 4-2-2-2 Tricolor.

Escalação do Mais Querido em 2013 (Feito no Tactical Pad)

Na Copa do Nordeste, a frustração foi marcada pela eliminação para o Fortaleza, mas o técnico estava disposto a fazer história – mais uma vez – no Campeonato Pernambucano. Num jogo antológico diante do Sport, em plena Ilha do Retiro, o Mais Querido venceu por 2 x 0 e se sagrou tricampeão estadual. Foi o primeiro título profissional de Martelotte à beira do gramado.  

Aquela equipe que reconsolidou a Cobra Coral como vencedora apostava nos contra-ataques. Na decisão, o primeiro gol foi marcado por Flávio Caça-Rato, em contragolpe fulminante. Raul lançou com maestria e CR7 teve a frieza para deslocar Magrão e estufar as redes rubro-negras.

Lance do primeiro gol contra o Leão (Imagem: Rede Globo)

Na sequência do trabalho, mesmo campeão, veio um duro golpe. Martelotte deixa o Arruda, em saída inevitavelmente conturbada, para defender o rival Sport. Na Ilha, contudo, não teve sucesso, caindo após derrota para o Icasa, em casa, por 2 x 0.

Também comandou o Náutico, no mesmo ano, e acabou rebaixado como lanterna da Série A. Parece que, ao menos em Pernambuco, Martelotte e o Santa nasceram um para o outro.

QUANDO TUDO COMEÇOU

A simbiose entre os dois – tantas idas, tantas vindas… – começou em 1993. Ainda como goleiro, foi um dos destaques do time que venceu categoricamente o Pernambucano em cima do Náutico, no Arruda, numa virada memorável.

Santa campeão em 1993 (Foto: Ramiro Spíndola/Revista Viver)

Na ocasião, o Santa atuou com um a menos desde os 38 do primeiro tempo da decisão. O alvirrubro vencia por 1 x 0 e jogava pelo empate, mas no apagar das luzes, o tricolor fez dois gols em seis minutos, com Fernando e Célio, e deixou atônitos os mais de 71 mil torcedores no Arruda; Paulo Leme, cobrando falta, marcou o Timbu.

A façanha de virar a peleja rendeu a vantagem do empate na prorrogação para o time da casa. Com Marcelo (só passou a adotar o Martelotte depois de técnico) segurando lá atrás, deu 0 x 0 e o título imprevisível veio.

Seis anos mais tarde, em 1999, o arqueiro fez parte do elenco que subiu da segunda para a primeira divisão após empate sem gols, contra o Goiás, no Serra Dourada. Contra o Esmeraldino, Marcelo estava no banco de reservas, com Nilson como titular.

Arte principal: João Rodrigues

Referências:

Reis do futebol em Pernambuco: técnicos / Carlos Celso Cordeiro, Lucídio José de Oliveira e Roberto Vieira. Editora Coqueiro, 2012.

História dos campeonatos / José Maria Ferreira. CEPE, 2007.

O que esperar taticamente da nova passagem de Martelotte no Santa Cruz: https://mwfutebol.com.br/2020/09/13/tatica-martelotte-santa-cruz/

A fantástica trajetória de Marcelo Martelotte no Santa Cruz: https://doentesporfutebol.com.br/2015/10/a-fantastica-trajetoria-de-marcelo-martelotte-no-santa-cruz/

Transfermarket: https://www.transfermarkt.com.br/marcelo-martelotte/profil/trainer/16828/sort/anzahl.desc

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: