20 anos do show de Leonardo: análise Atlético-MG 0x6 Sport

Por: Felipe Holanda

Letal. Impiedoso. Devastador. Nenhum destes adjetivos é capaz de traduzir ao pé da letra a atuação de Leonardo no 6 x 0 do Sport sobre o Atlético-MG, em pleno Mineirão, há exatos 20 anos. Endiabrado, o atacante leonino deu show, com cinco gols e uma assistência.

Nesta efeméride especial, separamos um olhar tático sobre o confronto de 19 de novembro de 2000, um dos mais memoráveis da história do time da Praça da Bandeira, e que marcou a maior derrota sofrida pelo Galo em Campeonatos Brasileiros.

PERFORMANCE DE CINEMA

O Público presente ao Gigante da Pampulha custava a acreditar no que acontecia. Um atacante franzino e nordestino, desfilando livre contra um time do Sudeste e um dos maiores do País. Dentro de campo, Leonardo estraçalhou o adversário e só não fez chover naquela tarde ensolarada de domingo.

Taticamente, atuou aberto na ponta esquerda no 4-3-3 ofensivo de Emerson Leão, já que o Sport era vice-líder e o Atlético não tinha mais chances de classificação à segunda fase, indo a campo repleto de reservas. Aquele time rubro-negro também contava com outros ótimos jogadores, como Bosco, Leomar, Sidney e Dutra.

Formação inicial do rubro-negro diante dos atleticanos (Feito no Tactical Pad)

Não demorou a sair o primeiro. Marcado pelo próprio Leo, que recebeu bom passe de Ranielli, não tomou conhecimento do experiente Célio Silva e abriu a contagem. Foi o primeiro golpe do Leão na peleja.

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Insatisfeito, Leonardo continuou infernizando a vida de Célio, zagueiro com passagens importantes pela seleção brasileira. Driblou o marcador e rolou na boa para Taílson fazer 2 x 0, com apenas quinze minutos no relógio; mal sabiam os mineiros, contudo, que o pior ainda estava por vir.

Grande jogada e presente para o companheiro de ataque (Imagem: Rede Globo)

A surra continuou no segundo tempo, quando o artilheiro dominou cruzamento da esquerda e finalizou rasteiro, no canto do goleiro, para fazer o terceiro e confirmar o “passeio” do time da Ilha do Retiro em Belo Horizonte.  

Leo completou seu hat trick quando apareceu – mais uma vez – com liberdade na grande área. Tinha a opção do passe, mas preferiu o chute e anotou 4 x 0, à medida que a torcida do Galo, incrédula, deixava as arquibancadas do Mineirão.

O terceiro de Leo no jogo (Imagem: Rede Globo)

Os poucos que ficaram testemunharam o restante do show. Após tiro de meta do goleiro Bosco, a zaga alvinegra cortou mal e Leonardo encobriu o goleiro Kléber para fazer o quinto, de novo surgindo nas costas da defesa pela esquerda do ataque.

Inapelável para os atleticanos (Imagem: Rede Globo)

Fechando a performance de cinema, ainda deu o tiro de misericórdia no sexto gol, completando cruzamento de Marquinhos e selando o 6 x 0 após Lima cobrar falta na barreira. Não por acaso, o goleador virou notícia pelo Brasil inteiro.

REPERCUSSÃO NACIONAL

Na manhã seguinte, a imprensa insistiu em noticiar a grande atuação de Leonardo, que anotou 13 tentos pelo Sport naquela edição do Brasileiro, a Copa João Havelange, sendo cinco sobre o Atlético.

Com a marca de cinco gols num único jogo de Série A, Leo entrou para um seleto grupo ao lado de nomes como Ronaldo Fenômeno (pelo Cruzeiro, em 1993), Dodô (duas vezes, pelo São Paulo, em 1997), Roberto Dinamite (pelo Vasco, em 1980) e Nunes (pelo Flamengo, em 1981). O único a superar o feito foi Edmundo, que fez seis no passeio vascaíno diante do União São de João de Araras, em 1997.

No campeonato, o Leão avançou à segunda fase na segunda colocação, sucumbindo apenas para o Grêmio, do inspiradíssimo Ronaldinho Gaúcho, nas quartas de final; o campeão foi o Vasco, que venceu o São Caetano na decisão.

FICHA DO JOGO:

Local: Estádio Mineirão, em Belo Horizonte-MG

Árbitro: Vágner Tardelli de Azevedo (RJ)

Data: 19/11/2000

Atlético-MG: Kléber; Bruno (Michel), Célio Silva, Alexandre, Mancini; Rodrigão, Del Toro, Léo Dias, Fábio Melo; Cacá e Kim. Técnico: Nêdo Zavier.

Sport: Bosco; Saulo, Erlon, Márcio, Dutra; Leomar, Sidney (Lima), Ranielli; Almir (Ricardinho), Taílson (Marquinhos) e Leonardo. Técnico: Emerson Leão.

Gols: Leonardo, aos 3, 64, 67, 81 e 86; Taílson, aos 16.

LEONARDO NO SPORT

Nascido em 1974 na cidade de Picos, Piauí, Leonardo Pereira da Silva chegou ao Sport no início da década de 1990, depois de sagrar campeão estadual pelo Picos, time sua cidade natal, com apenas 17 anos. A primeira temporada na Ilha do Retiro serviu para adaptação nos juvenis, onde o atacante começou a abraçar as cores rubro-negras e fazer história. E que história, diga-se.

Reportagem do Diario de Pernambuco no dia 15/7/1992 sobre a chegada do atacante (Reprodução/Acervo)

O ano, 1994. Leonardo já se destacava entre os profissionais e marcou seu primeiro gol pelo clube na vitória por 4 x 0 sobre o Ypiranga, em abril, pelo Pernambucano. De quebra, conquistou seu primeiro troféu após vencer o Náutico na final do Estadual. Aquela equipe ainda foi além, levando também a Copa do Nordeste e terminando o Campeonato Brasileiro na nona colocação.

Brilhando ao lado de nomes como Juninho Pernambucano e Chiquinho, o jovem de 1,64m de altura caiu nas graças do técnico Zagallo e esteve na lista dos convocados da seleção de jovens que venceu o Torneio de Toulon em 1995.

Na sequência, o Vasco levou Leonardo, que se tornou mais um artilheiro do Leão a ser contratado pelo Cruzmaltino, clube que projetou Ademir de Menezes e Almir Pernambuquinho para o futebol nacional. Sem sucesso, ainda passou por Corinthians e Palmeiras antes de retornar ao Recife.

SEGUNDA PASSAGEM

Em seu segundo capítulo na Praça da Bandeira, dois anos mais tarde, Leonardo foi peça fundamental para a conquista do Pernambucano. No retorno, jogo duríssimo contra o Central, em Caruaru. Quando tudo se encaminhava para uma vitória da Patativa, o pequeno atacante apareceu no meio dos defensores centralinos e empurrou de cabeça para o fundo das redes; Luís Müller, em outro cabeceio, virou para o time da capital.

À época, os rubro-negros decidiriam o segundo turno com o Porto e se vencessem levantariam o troféu por direito, sem precisar de uma final. Diante do tricolor do agreste, Leo mais uma vez cruzou com a história e ficou com o título no triunfo por 2 x 0.

O matador foi o grande artilheiro daquela edição com 14 gols. Destaque para um hat trick na goleada por 5 x 1 sobre o Náutico, justamente no dia do aniversário de 96 anos do avirtubro; Leomar e Juninho Petrolina também colocaram água no chope do Timbu.

O Leão voltou com tudo em 1998, faturando o tricampeonato de maneira invicta. O melhor, no entanto, foi na Série A, quando Leonardo marcou nove vezes e liderou o esquadrão que terminou a primeira fase na quinta colocação e só foi eliminado nas quartas de final para o Santos de Alessandro e Viola, que tinha um dos melhores ataques da competição.

No ano seguinte, veio o inédito tetra e artilharia absoluta para Leo, com 24 tentos assinalados, cinco a mais que Adriano, que fez ótimo Estadual na Rosa e Silva e mais tarde se tornaria companheiro de time. No Nacional, porém, o cenário foi totalmente oposto, com péssimas atuações e última colocação na tabela – naquela temporada, não existia rebaixamento.

Coisas do futebol. Em 2000, além do penta, Leonardo foi o grande nome da equipe Campeonato Brasileiro e despertou o interesse do Cruzeiro, deixando mais uma vez deixando a Ilha do Retiro.

TERCEIRA PASSAGEM

Leonardo voltou a viver dias de andarilho e perambulou por Vitória-BA, América-MG e Belenenses-POR até retornar ao Sport, em 2004, para sua pior e última passagem pelo Leão. Em números, três gols, sendo o último no fatídico 7 x 1 para o Marília, pela Série B.

O atacante também balançou as redes da AGA, de Garanhuns, e do Itacuraba, pelo Pernambucano, totalizando 136 tentos no geral e aparecendo como o terceiro maior artilheiro da história do clube, atrás apenas de Traçaia (202) e Djalma Freitas (161).

LEONARDO NO FUTEBOL PERNAMBUCANO

Além do Sport, Leonardo defendeu outros três times da região, primeiro acertando com o Santa Cruz, arquirrival leonino. No Mais Querido, no entanto, o atacante foi às redes em apenas quatro ocasiões, entre maio e outubro de 2005.

Os lampejos do craque voltaram a aparecer quando Leo foi contratado pelo Central, três anos mais tarde. Na Patativa, conseguiu certo destaque e deixou sua marca oito vezes, com direito a um tento sobre o ex-clube, na Ilha do Retiro.

Já em final de carreira, o goleador defendeu sua última equipe em Pernambuco: o Sete de Setembro, de Garanhuns. No Guará do agreste, foram três gols, sendo o primeiro deles diante do Náutico, nos Aflitos.

DESPEDIDA INDIGNA

Leonardo faleceu precocemente em 1º de março de 2016, devido a uma falência múltipla dos órgãos, depois de passar quase um mês internado no Hospital da Restauração, área central do Recife. Tinha apenas 41 anos.

O atacante não teve uma despedida digna, mas se eternizou, deixando todos com uma única certeza: que ele soube, como poucos, colocar o grito de gol nas arquibancadas do futebol pernambucano.

Arte: João Rodrigues

Referências:

Reis do futebol em Pernambuco: goleadores  / Carlos Celso Cordeiro, Lucídio José de Oliveira e Roberto Vieira. Olinda: Livro rápido, 2014.

História dos campeonatos / José Maria Ferreira. CEPE, 2007.

Em 2000, Sport massacrava Atlético-MG com show de Leonardo: https://jc.ne10.uol.com.br/canal/esportes/sport/noticia/2017/06/21/em-2000-sport-massacrava-atletico-mg-com-show-de-leonardo–290939.php

História de Leonardo no Sport começou em 14 de julho de 1992, relembra a página do Diario: https://www.pe.superesportes.com.br/app/noticias/futebol/sport/2016/03/01/noticia_sport,41132/historia-de-leonardo-no-sport-comecou-em-14-de-julho-de-1992-relembra-a-pagina-do-diario.shtml

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