`Por: Felipe Holanda
A história do Náutico está ligada, em suas entranhas, a Muricy Ramalho. O treinador, que completa 65 anos nesta segunda-feira (30), armou o time que foi campeão Pernambucano em 2001, no ano do centenário. De quebra, impediu o hexa do arquirrival Sport, tirando o Timbu de uma seca de títulos que já durava mais de uma década.
Esta análise especial busca dissecar os trabalhos históricos do ex-comandante alvirrubro, que é um dos técnicos mais importantes deste século no futebol Pernambucano.
ESTREIA EMBLEMÁTICA
A noite quente de uma quarta-feira recifense foi o que marcou a estreia de Muricy pelo Náutico. Logo de cara, confronto duríssimo contra o Sport, na ilha do Retiro, e pressão acima da média. Era tudo, ou nada.
Aquele Náutico já dava indícios de uma das principais marcas de Muricy como técnico: a subida dos volantes para pisar na área avdersária. Algo que foi facilitado pela qualidade de Sangaletti e Wallace, que haviam se mudado recentemente da Ilha para os Aflitos.
Com Sangaletti na progressão de posse, Wallace flutuava entrelinhas, dando a toada do jogo alvirrubro e sendo o dono do meio de campo. Foi de Wallace o passe para o tento que abriu o placar, puxando a marcação e tocando para Thiago Gentil estufar as redes leoninas.

Atuando no 4-4-2, Muricy viu Rodrigo Gral cravar o empate e Gilberto fazer grandes defesas para evitar a virada rubro-negra ainda na etapa inicial, enquanto se descabelava à beira do gramado. Agravando o quadro, Marcelo Fernandes foi expulso.
Dentro da casa do rival, com dez em campo e menos de um mês depois de cair para o próprio Sport na semifinal do Copa do Nordeste, era de se esperar um novo revés.

Eis que um atacante – ainda – desconhecido chamado Kuki sofreu falta no campo de ataque e o sergipano Adílson se deslocou para bater. A cobrança de falta arrebatadora, no ângulo direito de Neneca, foi o momento sublime do jogo e o gol entrou para a história do clássico.
Mas o Timbu ainda brigava contra todas as adversidades e tinha o relógio como inimigo na Ilha. Com garra, suor e sange, o resultado veio para renovar as esperanças e coroar a estreia positiva de Muricy; dias depois, com vitória sobre o Santa Cruz na partida extra, o Timbu levou o primeiro turno.
REMANDO À HISTÓRIA
As próximas páginas da saga do título também foram timbradas em vermelho e branco por Muricy. Àquela altura, o time já era uma realidade e a qualidade do elenco somada à tenacidade do jovem treinador foram cruciais para que o Náutico vencesse a primeira das finais por 2 x 1 contra o Santa.
O ápice da passagem de Muricy pela Rosa e Silva acontece no dia 11 de julho de 2001, diante de mais de 70 mil pessoas no Arruda. Na decisão, optou pelo “feijão com arroz”, num 4-2-2-2 que deu tão certo que desconcertou a cobra coral nos minutos iniciais.

A vantagem do empate não bastava e a dupla formada por Kuki e Thiago Gentil estava mesmo enfezada e fez a marcação das três cores ter pesadelos naquela noite.

Com um gol de casa, o 2 x 0 estava decretado. Veio o apito final e com ele a comoção entre os jogadores, o técnico e a torcida. O jejum de 11 anos estava, enfim, quebrado.
Muricy continua no comando da Série B, mas a equipe não corresponde em meio à crise financeira. Ele, inclusive, teve que arcar algumas despesas do próprio bolso para manter a competividade e acabou se mudando para o Arruda, onde não teve – nem de longe – o mesmo êxito.
Tentou organizar o Tricolor após a saída de Ferdinando Teixeira, que deixou o time em pedaços na Série A do Brasileiro. Em 14 jogos, apena uma vitória e rebaixamento decretado.
DE VOLTA PARA CASA
Talvez já estivesse escrito e Muricy voltou ao Náutico para fazer história de novo. Dominante, estreou de cara com um sonoro 8×2 no Botafogo-PB, pela Copa do Nordeste.
O bicampeonato veio contra o mesmo Santa Cruz, após campanha quase irretocável do Timbu em 2002. O gol do “título” foi marcado por Fumaça, atacante que Muricy colocou na vaga de Ludemar.

Até hoje, Muricy faz questão de expressar o seu carinho pelo Náutico, sendo conselheiro do clube e dos personagens mais importantes da história alvirrubra.
Referências:
Reis do futebol em Pernambuco: goleadores / Carlos Celso Cordeiro, Lucídio José de Oliveira e Roberto Vieira. Olinda: Livro rápido, 2014.
História dos campeonatos / José Maria Ferreira. CEPE, 2007.