Náutico 120 anos: relembre taticamente times históricos

Por: Felipe Holanda

Quem olha não esquece jamais. Em 120 anos de tradição, o Náutico acumula uma série de times antológicos. Dos tempos áureos na Década de 1960, com o rifle calibrado de Bita e o batuta do técnico Duque, passando pelo virtuosismo de Jorge Mendonça e do faro artilheiro de Baiano e Bizu, chegando aos ídolos mais recentes, caso de Kuki, campeão do centenário em 2001.

O Pernambutático ouviu sete especialistas para elaborar um Top 5 alvirrubro. Deram seus votos os historiadores Lucídio José de Oliveira, Luciano Guedes Cordeiro e Roberto Vieira; os jornalistas Cassio Zirpoli, Luís Francisco Prates, Marcelo Araújo e Renata Guerra, além de Victor Cavalcanti, do Futebol de Raízes.

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1º – O maior de todos os tempos

Revirando as páginas da história, o primeiro lugar seria injusto em qualquer dos vieses se não ficasse com time do Hexa. Seis títulos seguidos, de fato, não é algo comum. Nem era. Nunca foi. Sob o comando de David Ferreira, o Duque, aquela equipe jogava por música, afinada e virtuosa tal quão os sanfoneiros do sertão pernambucano.

O maestro Duque tinha o elenco nas mãos. Montava ali um grupo que era praticamente imbatível e colocava medo em todos que vinham pela frente. Como características do futebol na época, o alvirrubro era ataque a todo vapor. Formando um 4-2-4, tinha um quarteto mortífero de frente, comandado por Bita, o “Homem do Rifle”. Com o apoio dos laterais, principalmente Gena pela direita, o Timbu se postava numa espécie de 2-2-6 que tirava o sossego de qualquer rival.

O ápice desse esquadrão de craques foi um verdadeiro baile no Santos de Pelé em São Paulo. Com show de Bita, que foi às redes quatro vezes, o Náutico atropelou o Peixe e venceu por 5 x 2 diante de um incrédulo Pacaembu, que viu o maior jogador da história do esporte cair diante dos – quase ilesos – alvirrubros.

Escalação alvirrubra diante dos paulistas (Feito no Tactical Pad)

Além do baile em Pelé, quase veio o título na Taça de Brasil de 1967, o equivalente ao Brasileirão da época. Numa melhor de três contra o Palmeiras, restou apenas o vice. O sentimento de ter encantado o Brasil com um jogo de toques rápidos e muita movimentação, entretanto, era do Timbu por direito. O feito rendeu, também, uma vaga na Libertadores da América do ano seguinte, se tornando o primeiro pernambucano a disputar a competição internacional.

Um dos grandes inimigos do Náutico não foi o Palmeiras, mas sim a qualidade precária do gramado do Maracanã após fortes chuvas na capital fluminense. Com dificuldades para trocar passes, os alvirrubros abusavam das bolas áreas, mesmo num 4-2-4 em bloco alto. O Verdão, marcando por encaixes, fez um gol em cada tempo e ficou com o caneco no Palestra Itália.

Náutico atacando no 4-2-4 (Imagem: Canal 100)

Em 1968, veio o glorioso hexa. Conquista que foi fruto de um trabalho de garimpagem bem feito, iniciado pelo treinador argentino Alfredo Gonzalez. Ele, junto a Alexandre Borges, das categorias de base, foram os pilares daquela caminhada. Grandes nomes do futebol pernambucano, como Bita, Nado, Salomão, Lula Monstrinho, Nino, Lala, Rinaldo e muito outros, foram descobertos pelo olhar apurado de Borges e lapidados por Gonzalez.

O jogo do título, frente ao Sport, contou com requintes de crueldade. O alívio vermelho e branco só aconteceu na prorrogação, quando Ramos levou a melhor sobre os zagueiros e estufou as redes de Militão para selar o título. O clássico foi cheio de confusões e os leoninos Valdeci e Zezinho foram expulsos. Seis vezes Náutico.

Escalação do jogo do hexa diante do Sport (Feito no Tactical Pad)

2º – Hexa é luxo

A conquista do Hexa é até hoje exclusividade Timbu, mas já esteve bem perto de ser diluída. A primeira vez foi no Pernambucano de 1974, quando o Náutico fez a final contra o então pentacampeão Santa Cruz. Comandados por Jorge Mendonça, convocado à Copa do Mundo de 1978, o Náutico levou a taça e pôs fim ao sonho tricolor.

Ali, o treinador Orlando Fantoni apresentava um modelo de jogo inovador para a época. Os pontas passaram a jogar mais abertos, dando amplitude ao invés de cortar para dentro. A estratégia confundia a marcação adversária. Taticamente, era algo bem próximo ao 4-2-4, com Dedeu, Jorge Mendonça, Paraguaio e Lima mais adiantados. No meio, Juca Show dava as cartas explorando lançamentos médios e longos.

Mas era o talento de Jorge Mendonça que dava a toada e o ritmo alvirrubro. Liberado por Fantoni, o craque tinha liberdade para flutuar entrelinhas, ora caindo pela direita, ora pela esquerda, como visto na vitória sobre o Corinthians, quando marcou os dois gols pelo Campeonato Brasileiro daquele ano.

Trinca ofensiva do Timbu no Arruda (Imagem: Bandeirantes)

3º – Baiano: o goleador

Valmeci José Margon, o Baiano, marcou época no Recife. É o maior artilheiro da história do Campeonato Pernambucano com 206 gols. Na carreira, soma 318. Passou em outros clube do Estado, mas brilhou mesmo no Náutico, sendo artilheiro do Estadual em 1982 e 1983. Em 1984, foi grande destaque da campanha alvirrubra no Brasileiro, que culminou com a sexta posição.

Atuando como uma espécie de falso 9, às costas do centroavante, Baiano deitava e rolava. Tinha liberdade para se movimentar próximo à grande área rival e geralmente destroçava as linhas de defesa. O leque ofensivo também contava com outros bons valores, casos de Sivaldo e Lima.

Escalação alvirrubra na final do Pernambucano de 1985 (Feito no Tactical Pad)

Aquele foi o primeiro título do Timbu atuando com uma linha defensiva de quatro. Marcando geralmente baixo, o time comandado por Mário Juliato pressionava o portador da bola com dois ou mais homens, enquanto os zagueiros e laterais se fixavam lá atrás para proteger a meta alvirrubra.

Com Baiano caindo pela direita, o time da Rosa e Silva dominou as ações na decisão e não deixou a Cobra Coral destilar o seu veneno. Tinha a vantagem do empate e levou o caneco, com um roteiro bem semelhante a 1985, o ano do bi.

Baiano em investida pela direita contra o Santa Cruz (Imagem: TV Cultura)

4º – Os campeões do centenário

Um roteiro desesperador. Esse era o cenário do Náutico no início o Século XXI. Às vésperas de completar 100 anos de fundação, via o arquirrival Sport crescer com cinco títulos seguidos e ameaçar a exclusividade do Hexa. Golpeado, o Timbu precisava reagir. A reformulação alvirrubra em 2001 passa diretamente por um nome em especial: Muricy Ramalho.

Com bons valores individuais, mas algumas fragilidades no elenco, Muricy fez um time homogêneo que sabia muito bem o que fazer dentro das quatro linhas. O “coração” entre os titulares era o capitão Sangaletti. O cérebro, Wallace. Ambos haviam deixando a Ilha do Retiro para fazer história na Rosa e Silva.

Tendo Sangaletti e Wallace, a equipe se postava num 4-4-2 tradicional, preenchendo o meio de campo e com boa fluidez nos passes. Era vertical e conseguia criar chances de perigo com poucos toques na bola. Na frente, uma dupla dinâmica: Kuki e Thiago Gentil. Além deles, Danilo dava suporte valioso entrelinhas.

Triangulação ofensiva com Kuki, Tubarão e Danilo (Imagem: Rede Globo)

Depois de fazer jogos emblemáticos contra o Sport, o Timbu enfrentou o Santa Cruz com a sensação de dever cumprido, já que as chances do Hexa do Leão já haviam se esvaído. Impondo seu ritmo de jogo, o alvirrubro venceu por 2 x 1 na ida e foi à decisão tendo a vantagem do empate para ser campeão.

No Arruda, diante de mais de 70 mil pessoas, o Timbu brotou o esplendor na ponta da chuteira. Mais um show dos infernais Kuki e Thiago, vitória por 2 x 0 com um gol em cada tempo, e o resgate estava carimbado. Renascia, ali, a força e a raça alvirrubra.

Escalação dos comandados de Muricy na decisão (Feito no Tactical Pad)

5º- Quatro letras mágicas

Bita, Nino, Lala, Kuki…Bizu. A história de Cláudio Tavares Gonçalves no futebol pernambucano começou ainda antes de assinar com o Náutico. O ano, 1987. Santa Cruz e Palmeiras se enfrentavam pelo Módulo Verde da Copa União e os corais venciam por 1 x 0. Até que aos 30 minutos do segundo tempo, o técnico Rubens Minelli faz a última e desesperada alteração no alviverde. Era ele, Bizu.

No Arruda, o desconhecido causou um verdadeiro alvoroço. Oportunista, Bizu fez dois gols e virou o jogo para os paulistas. Despertava ali o interesse da equipe da Rosa e Silva em contratá-lo. Aos 28 anos, o atacante ganhava uma nova chance de mostrar o seu valor em um grande clube.

Como se jogasse por um prato de comida, foi marcando gol em cima de gol, jogo após jogo. Gol de tudo que é jeito. Nas arquibancadas dos Aflitos, o coro não parava de ser entoado pela torcida alvirrubra e o apelido estava, literalmente, na boca do povo. O resto é história.

A Copa do Brasil de 1990 foi, de fato, a competição que o artilheiro despontou de vez. Dono de uma a pontaria sempre calibrada, Bizu era peça chave da equipe de Otacílio Gonçalves, que apostava num 4-2-4 com variações para o 4-3-3, tendo mais liberdade para cair pela esquerda ou atuar como referência, já que finalizava bem.

Escalação do Náutico semifinalista da Copa do Brasil de 1990 (Feito no Tactical Pad)

O sonho de dar um título nacional ao escrete das duas cores foi silenciado pelo Flamengo na semifinal. Precisando da vitória, o Timbu ficou no 2 x 2 e estava eliminado. Mas Bizu deixou o dele, assumindo a artilharia do certame com sete gols. No lance, não se intimidou com a marcação tripla dos cariocas, antes de fuzilar o goleiro Zé Carlos.

A marca do artilheiro Bizu (Imagem: Rede Globo)

Bizu teve participação decisiva na campanha do acesso Timbu à série A em 1988. Também foi campeão pernambucano em 1989, e artilheiro do estadual de 1989 (31 gols) e 1990 (19 gols), além de ter sido o goleador máximo da Copa do Brasil de 1990. Em 179 aparições com a camisa alvirrubra, fez 114 gols – média de 0.64 por jogo.

Menções Honrosas

Uma lista que engloba apenas os cinco maiores times do Náutico fatalmente deixaria grandes craques de fora. Em menção honrosa, está o esquadrão da Década de 1950, tricampeão invicto do Pernambucano, tendo Ivson, artilheiro do Estadual em 1953 e 1954, como principal destaque.

Escalação do Timbu tricampeão invicto do Estadual de 1954 (Feito no Tactical Pad)

Antes, em 1934, o Náutico montou verdadeiro timaço. Era dotado de um futebol completamente ofensivo, estratégia implantada pelo técnico uruguaio Umberto Cabelli, inspirado exatamente no Uruguai bicampeão olímpico (1924 e 1928) e campeão mundial (1930). Formando um espécie de pirâmide no 2-3-5, com destaque para Fernando Cavalheira, segundo maior goleador do clube, o Timbu sobrou no Pernambucano e ficou com a taça.

Esquadrão alvirrubro na década de 1930 (Feito no Tactical Pad)

Pegando uma viagem no tempo, também deve-se lembrar o Náutico de 2007, do artilheiro Acosta. Após segundo turno esplendoroso, o uruguaio terminou na vice-artilharia com 19 gols – Josiel, do Paraná, fez 20. O jogo mais emblemático foi o 4 x 1 em cima do Botafogo, quando Acosta marcou os quatro gols. Também brilhou no empate em 4 x 4 com o Paraná, em mais uma atuação inesquecível, ambas nos Aflitos. Do forró a Cumbia.

Escalação do Timbu frente aos paranistas (Feito no Tacitcal Pad)

Referências:

Reis do futebol em Pernambuco: Técnicos  / Carlos Celso Cordeiro, Lucídio José de Oliveira e Roberto Vieira. Recife, Ed. Coqueiro 2012.

Reis do futebol em Pernambuco: goleadores  / Carlos Celso Cordeiro, Lucídio José de Oliveira e Roberto Vieira. Olinda: Livro rápido, 2014.

História dos campeonatos / José Maria Ferreira. CEPE, 2007.

Produção: Luís Francisco Prates e Mateus Schuler
Arte: João Rodrigues

*Em memória: Carlos Celso Cordeiro e Izaias Júnior

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