Chuva de alegria: análise Vila Nova 0 x 1 Sport

Por: Ivan Mota

Para ficar na história. Em jogo dramático e marcado por forte chuva na capital goiana, o Sport derrotou o Vila Nova por 1 x 0 e, na última rodada do Série B do Campeonato Brasileiro de 2011, garantiu seu acesso. Há exatos 10 anos, o Serra Dourada se tornava a Ilha do Retiro. Quase cinco mil rubro-negros estiveram presentes na partida que levou o Leão de volta à elite do futebol nacional em uma das campanhas mais emocionantes da história do clube.

Nesta efeméride especial, trazemos um olhar tático, além de falas de Bruno Mineiro, sobre o duelo do dia 26 de novembro de 2011, onde os comandados de Mazola Junior superaram o gramado encharcado para garantir a festa de seus torcedores presentes no estádio e por todo o Brasil.

COMO FOI

Armado num 4-2-2-2, que muitas vezes se tornava um 4-3-3, os rubro-negros tinham como grande destaque do elenco Marcelinho Paraíba. O experiente meia era, até aquele momento, artilheiro do time na Série B com 12 gols. Mesma quantidade de Bruno Mineiro, que começou no banco de reservas, mas se tornaria o herói do acesso, se isolando na artilharia leonina. As novidades do time foram Renato na lateral-direita, substituindo Moacir, que cumpria suspensão, e Rithely no lugar de Hamilton, também suspenso.

Escalação inicial do Leão para a decisão do Serra Dourada (Feito no Tactical Pad)

“Naquele ano eu fiz 16 gols pelo Sport e no último jogo que foi contra o Vila Nova no Serra Dourada debaixo de uma tempestade. Tinha, acho que era, cinco ou seis mil torcedores do Sport lá. Eu lembro que um dia antes estávamos no hotel e os torcedores foram até o hotel. E aquilo para nós foi muito gratificante, porque ali fez a diferença”

Bruno Mineiro, ex-atacante do Sport

Dependendo apenas de si para garantir o acesso, o Sport viveu um drama na reta final da competição. Muitos davam como certa a permanência por mais uma temporada na Série B, porém uma sequência positiva e uma combinação improvável de resultados deu ao Leão a chance do retorno, necessitando apenas de uma vitória simples. Isso inflamou a torcida e os atletas, que partiram para Goiás com o espírito de uma verdadeira final de campeonato.

Os recifenses partiram para cima desde o primeiro segundo de jogo, tentando explorar a fragilidade do elenco do Vila Nova que, já rebaixado, veio a campo com muitos garotos de pouca rodagem profissional. Aqueles que acreditaram em um jogo fácil, contudo, estavam enganados. O rubro-negro variou bastante seu esquema durante os 90 minutos, principalmente pela movimentação de Marcelinho Paraíba. O meia se deslocou por vários setores do campo, atuando no meio, pelos lados e algumas vezes até como atacante. Mas o desenho inicial do time foi no 4-3-3 com os laterais avançando bastante, principalmente Wellington Saci pela ala esquerda.

Sport inicialmente armado no 4-3-3 (Imagem: TV Globo)

Apesar de todo o domínio na posse, a primeira chance real dos visitantes só foi acontecer aos dez minutos e resultou em um gol anulado por impedimento. E foi justamente o lateral-esquerdo Saci que iniciou a jogada. Jogando praticamente como um ponta, ele aplicou um belo drible no canto esquerdo do campo para invadir a área e chutou com força. A bola parecia ter o endereço das redes, mas o atacante Willians, que estava em condição irregular, acabou desviando e matando o lance. Por diversos momentos do jogo, Marcelinho Paraíba recuava para buscar, chegando até mesmo a se alinhar com os volantes, formando uma espécie de 4-4-2 ou 4-3-3, com um dos volantes de origem assumindo funções ofensivas.

Camisa 10 rubro-negro jogando mais recuado no 4-4-2 (Imagem: TV Globo)

O treinador Mazola Júnior foi obrigado a realizar sua primeira substituição ainda no primeiro tempo. O atacante Roberson acabou se machucando e dando lugar para aquele que se tornaria o grande nome e herói da partida. Bruno Mineiro começou no banco, mas logo que entrou já demonstrou merecer a titularidade, já que além de ser um dos goleadores da equipe no ano, acabou criando algumas chances antes de abrir o placar.

Até o momento de alegria máxima dos torcedores, foram vários minutos de puro drama. Logo após uma bela cobrança de falta de Marcelinho Paraíba, outra arma importante durante toda a competição, a chuva começou a dar as caras no Serra Dourada. Também em seguida os donos da casa tiveram sua primeira grande chance. O lateral Victor Ferraz, possivelmente o nome que se tornou mais conhecido ao passar dos anos no cenário nacional daquele elenco do Tigre, acertou um belo cruzamento para Leandro Cearense. O atacante, livre de marcação, se esticou para finalizar, obrigando Magrão a realizar uma bela defesa.

Quando os alvirrubros se aproximavam da área adversária, o Sport se fechava com uma linha de cinco defensores. Nesse caso, o volante Rithely se juntava à dupla de zaga, enquanto Wellington Saci dava o combate e era auxiliado por Robston e Thiaguinho.

Pernambucanos formando uma linha de cinco defensiva (Imagem: TV Globo)

A primeira oportunidade de Bruno Mineiro aconteceu aos 32 minutos. Nesse momento os leoninos passaram a se posicionar ofensivamente no 4-2-3-1. O trio de meias mais avançados ficava com Marcelinho Paraíba centralizado, Willians pelo lado esquerdo e Thiaguinho na direita, deixando o centroavante isolado em sua função de origem. E foi num bom cruzamento de Renato que o atacante apareceu em boa condição de abrir o placar, entretanto cabeceou fraco e nas mãos do goleiro.

Sport atacando no 4-2-3-1 (Imagem: TV Globo)

Antes do fim do primeiro tempo ainda aconteceram mais duas chances para os pernambucanos, ambas com origem na bola parada de Marcelinho. A primeira foi um cruzamento desviado por Willians onde a bola bateu no travessão e por pouco não entrou. A segunda foi uma cobrança direta, de muito longe, com direção ao ângulo do goleiro Luís Cetin, que fez uma grande defesa. Ainda deu tempo para mais um ataque dos goianos; dessa vez Magrão fez um milagre ainda maior, segurando a bola em cima da linha.

“Me lembro como se fosse hoje que, debaixo de chuva, acabou o primeiro tempo sem gols. Nós entramos no vestiário. Um olhava para cara do outro e falava: ‘Cara, se a gente não ganhar isso aqui, a gente tem que ir a pé daqui a Recife, porque não tem cabimento’. A gente se sentia praticamente na Ilha. A gente não poderia perder aquele jogo ali, aquela classificação”

Bruno Mineiro, ex-atacante do Sport

A equipe retornou ao segundo tempo com mais uma mudança. O atacante Misael ficou com a vaga de Willians, no entanto a principal diferença da primeira para a segunda etapa foi outra, a condição do gramado. A chuva, que já acompanhava a disputa durante algum tempo, aumentou de forma exponencial durante o intervalo, deixando o gramado do Serra Dourada com poucas condições de jogo. A bola parava nas poças e lamas em quase todas as jogadas, obrigando as duas equipes a buscarem na bola parada e em cruzamentos ou chutões as únicas opções de avançar no jogo.

Nas poucas vezes que o Sport conseguiu botar a bola no pé para tentar algo, se armou num 4-3-3, com Thiaguinho jogando como o meia armador e o trio ofensivo com Misael, Bruno Mineiro e Marcelinho Paraíba. E esse último seguia como o responsável pelas melhores oportunidades. Aos cinco minutos, foi a vez do zagueiro Gabriel receber um cruzamento e quase marcar.

Quarteto ofensivo do Sport lutando contra o gramado (Imagem: TV Globo)

Aos nove, o treinador leonino queimou sua última alteração. Possivelmente acompanhando os resultados da rodada e vendo que o Leão precisava vencer de todo jeito para garantir o acesso, colocou mais um atacante. Júnior Viçosa entrou no lugar do lateral-direito Renato, deixando o time ainda mais ofensivo. Mas foram longos dez minutos até aparecer a primeira boa chance. O gramado castigado não deixava a bola correr e dificultava todos os lances. Mais uma vez em cobrança de falta, Marcelinho Paraíba obrigou o goleiro goiano a fazer outra grande intervenção.

Aos 27 minutos a alegria tomou conta das arquibancadas. O drama era tão grande que alguns torcedores ficaram até sem reação. Após escanteio curto, Marcelinho, sempre ele, mandou para área e encontrou Bruno Mineiro livre. Dessa vez, o artilheiro não perdoou, cabeceou para baixo e viu a bola passar entre as pernas de Luís Cetin. Ela nem chegou a balançar as redes, mas não havia dúvidas que atravessara a linha, gerando a explosão dos rubro-negros no Serra Dourada.

“Marcelinho, como sempre, sabia bater muito bem na bola e cruzou para mim, e meu ponto forte é na área, né? Todo mundo sabe e eu fiz o gol. Eu lembro que a bola não chegou nem bater na rede de tão alagado que estava o campo, mas foi muito gratificante, felicidade imensa. Eu falo até hoje que foi a melhor emoção que eu senti na minha vida com relação à comemoração, com relação a amor da torcida pelo Sport. Então pra mim foi gratificante demais, ainda mais fazendo o gol do acesso”

Bruno Mineiro, ex-atacante do Sport

Após o gol, a equipe passou a jogar mais fechada, Thiaguinho se tornou lateral, Marcelinho assumiu de vez o posto de volante e até os atacantes voltaram para ajudar. O bloqueio funcionou, sem deixar o adversário chegar nenhuma vez com perigo, qualquer bola que se aproximasse da área de Magrão era rebatida com um chutão. A única chance antes do fim do jogo aconteceu já nos acréscimos. Júnior Viçosa recebeu após mais um desses chutes longos, driblou o zagueiro e bateu colocado, raspando a trave.

Com o apito final, a emoção foi ainda maior. Alguns jogadores desabaram no gramado, completamente esgotados após os 90 minutos correndo no gramado quase impraticável. Os torcedores, que viajaram de tão longe, invadiram o campo, indo de encontro aos jogadores para festejar a vitória e o acesso, numa das comemorações mais emblemáticas da história do clube. O duelo que completa 10 anos e jamais será esquecido pelos jogadores, comissão técnica e torcedores.

Arte: Ivan Mota sobre imagens de Divulgação/Sport

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